Mafuá do Bruzundanga

Briguet e o ex-covarde

Não sou amigo de Paulo Briguet. Não o conheço. Chegamos a tomar uma cerveja, junto com outros quintaferinos, que se estendeu do Bar Brasil ao Kotovelo’s. Dessas poucas horas de conversa saí com a impressão de que ele não foi muito com a minha cara e nem eu com a dele. Nada grave, apenas a antipatia casual entre duas pessoas que jamais se viram antes na vida. Isso foi em 2005. Desde então, nunca mais o vi.
Não o vejo, mas leio. Leio e gosto. Sempre gostei. Já gostava das suas crônicas antes daquela quinta-feira e continuo gostando inda agora. Poderia recorrer a algumas afinidades para justificar essa admiração, ambos somos católicos, ambos somos liberais e somos os dois leitores de Roberto Campos, por sua vez, também católico e liberal. O que admiro, porém, em Briguet - ou por outra, não o que eu admiro e sim o que reconheço em Briguet - é o escritor: conhece a língua na qual escreve, não a maltrata, tem o que dizer e é sincero quando o faz. E talvez por isso ele incomode. Não sei! Não sou psicanalista, nem dado à análise de botequim, por isso não me pergunto sobre o ressentido, o viado ou o corno em cada crítico que o ataca de maneira imbecil. Eles lá é que sabem de si. Ademais, a vaia, no Brasil, ainda é o maior elogio.
E se é de Nelson Rodrigues que me vem esse último pensamento, é dele também que me vem o título desse texto e a crônica abaixo, que colo aí por motivos óbvios.


O ex-covarde
Nelson Rodrigues

Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"
Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.
Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.
Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.
O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.
Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.
Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.
Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo,
Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.
Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.
Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".

Publicado em 03 de maio de 2007 às 17:24 por grimaldo

Comentários

    • clap clap clap

      Infelizmente não vai fazer a discussão contra o Briguet terminar, mas foi um verdadeiro tapa com luvas de pelica. Que visão. Que orgulho.
    • por vanessagummo
    • 03.Mai.2007 às 17:48 - Permalink - Reportar
    vanessagummo
    • Ah, e a minha maleducação nem deixou-me agradecer pelo convite! Fica aqui agora registrado.
      E a noite? Valent's?
    • por grimaldo, Grimaldo
    • 03.Mai.2007 às 17:53 - Permalink - Reportar
    grimaldo
  1. vanessagummo
    • Bom, Grimaldo, já que você se meteu em discussão alheia, espero que esteja disposto a ouvir merda. Eu não me refiro ao Briguet já tem algum tempo. Acho ele um imbecil de marca maior? Sim. Acho ele um loser? Sim. Acho ele feio, barrigudo, infodível. Com certeza. Agora, uma coisa é certa. Ele consegue um séquito de imbecis como ele por um motivo muito simples: fala aquilo que uma caralhada de babacas que tem nesse país (não sei se é o seu caso) gosta de ouvir. Sei lá qual foi a decepção dele com a vida profissional, com suas ideologias e, sinceramente, pouco me importa. Fiquei muito puto com o fato de ele querer falar de um assunto que jamais vai entender. O que é ser gay nesse planeta. Nem ele nem você e nenhum heterossexual de merda sabe o que é ter de se esconder até para pegar na mão de alguém que gosta, ter que trepar em banheiro público e sofrer todo o tipo de represália porque simplesmente é diferente dos outros. Também acho uma pobreza de espírito ver um fodido que nem ele querendo dizer que é de direita. Não tem nem merda no cu pra cagar e querendo bancar o aristocrata. Mas isso é bem a cara de Londrina mesmo. Uma cidade que elege um imbecil como o Belinati, uma bicha enrustida como o Barbosa Neto e que elege um Paulo Briguet como símbolo da intelectualidade.
    • por margo
    • 03.Mai.2007 às 18:08 - Permalink - Reportar
    margo
    • Tá brava, flor? Pois é, que pena, eu não.
      Não sei se me meti em discussão alheia ou não, se deveria ou não, só sei que disposto a ouvir merda eu não estou. Quem está? Mas é verdade que quase admiraria seu reconhecimento de que só falou merda se o fato não fosse demasiado óbvio.
    • por grimaldo, Grimaldo, hetero de merda, direitista e sem grana
    • 03.Mai.2007 às 18:31 - Permalink - Reportar
    grimaldo
    • Ah, vá se foder seu filho duma puta, paga pau do caralho. Falei merda mesmo porque eu sou mais macho que vocês todos juntos, que ficam aí, nessa merda de cidade, um chupando o cu do outro (simbolicamente, claro, porque até pra chupar cu tem de ter colhões) para irem dormir pensando que são o máximo e, quem sabe, o pau de vocês levantar para vocês darem uma boa coelhada na dona encrenca.
    • por margo
    • 03.Mai.2007 às 18:37 - Permalink - Reportar
    margo
    • Grimaldo, tá com pena do Briguet?

      LEVA!!!
    • por Fábio
    • 03.Mai.2007 às 19:18 - Permalink - Reportar
    Fábio
    • Não, não. Deixa ele aqui azucrinando a bandalha.
    • por grimaldo, Filho duma puta e paga pau do caralho
    • 03.Mai.2007 às 19:55 - Permalink - Reportar
    grimaldo
    • Assumir as opiniões mesmo que elas sejam contra a da maioria. Boa. Pra que se fazer de coitado só porque pensa diferente, né?

      E, Vanessa, por favor, discussão CONTRA o Briguet é de cagar. Não vou perder tempo procurando os comentários nos quais um ou outro discutiam divergências políticas – de forma pouco educada, grande merda –, até que resolveram dizer “digo isso pois sou fodão e o resto, coitados, não”.

      Já deixou de ser engraçada essa discussão de devotos.
    • por fabebum, tentando deixar de se importar
    • 03.Mai.2007 às 20:07 - Permalink - Reportar
    fabebum, tentando deixar de se importar
    • É engraçado, James, toda vez que você se mete em alguma discussão aqui no Tipos, mais cedo ou mais tarde você aproveita pra falar mal de Londrina. O seu ressentimento com a cidade é digno de estudos – vai saber que trauma a sua pessoa guarda de lá, né?

      Se a sua visão de pessoa bem sucedida é morar em São Paulo e trabalhar pros Frias, a pena que sinto de você aumenta.
    • por canetti
    • 03.Mai.2007 às 22:10 - Permalink - Reportar
    canetti
Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

captcha

Digite os caracteres da figura acima. Temos que fazer isso para evitar spam.

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!