Cara R,

há carnaval lá fora, posso escutar daqui o ronco das baterias triunfantes e o bate-coxa das mulatas festivas seminuas. Ou será a televisão? Não, eu não tenho televisão. Sei que ali na Vila Brasil acabou de rolar um tiroteio. Deu para escutar daqui também. Ou foi na Via Expressa, não sei ao certo. Eram tiros, isso eu sei. O amontoado de livro, que já não fica ali no canto, mas nos cantos, olha-me desprezando, como se perguntasse que diabos faço aqui a essa hora sem minha roupagem de folião. Livros que não querem ser lidos... essa é boa! Sei que não é assim. Lembra das Cartas de Screwtape? Aprendi uns poucos truques do diabo ali e esse é apenas mais um deles, como se eu estivesse certo de que não morro já, de que terei todo o amanhã para fazer essas e tantas outras coisas. É uma espécie de orgulho, uma tentação que eu cedo facilmente e de certa forma consciente. E fico aqui pensando em esquivas para os folguedos carnavalescos, quando elas, as esquivas, que são, em realidade, o verdadeiro caminho, estão bem na minha cara. É carnaval, afinal de contas. Vou ao Chá das cinco, ou ao similar de sempre, beber o de sempre, fazer o de sempre, ou deprimo-me. Sabe como é, todos nós temos nossos narcóticos. Agarro-me na certeza da Infinita Bondade e conto com as penitências que se seguirão à quarta-feira de cinzas. É uma espécie de acerto de contas. E que mais odioso e triste poderia eu fazer do que transformar a salvação num balcão de negócios? Adrian Leverkuhn tentou e se deu mau: Fausto faz negócios melhor que nós. Deve ser chinês, o diabo. Há os amigos que, orfãos de blocos, também perambulam por aí desesperados, carentes de ação, do maldito e torturante “algo para fazer”. É o nosso clube, o nosso bloco. E vamos em festa, ainda que outra festa, mais barata, mais escura, sem lantejoulas. Mas nunca a quietude, a contemplação. É o sangue. É a terra. É essa herança da qual não nos livramos, o preço que pagamos, a condição brasileira inescapável. E o bode-espiatório para todos os desatinos. É o diabo. Você é que estava certo quando embarcou.
Mande notícias animadoras. Saudades,
S.

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