Mudar para que nada mude

Em Irvington, pequena cidade ao lado de Nova York, na outra margem do Hudson, vizinho a mais antiga instituição criada para a defesa e divulgação da liberdade e do livre-mercado, a Foundation for Economic Education, há um pequeno Pub onde se pode beber litros de cerveja, criticar o governo e assistir jogos dos Yankees. Lá trabalha um exilado cubano, que gosta de contar aos clientes as aventuras de quando trabalhava para o serviço secreto de Fidel Castro (não se admirem, segundo ele, um terço da população cubana trabalha para o serviço secreto) e sobre a espetacular fuga da ilha, quando, em missão para resgatar refugiados na Argentina, fugiu para o Brasil, escondendo-se em favelas de São Paulo e depois em um sítio no interior de Minas Gerais. Antes de chegar aos EUA, onde reside há 7 anos, viveu com documentos falsos na Bolívia e no México. O sujeito ama seu país, mas diz que não voltará jamais.

Não posso negar que apareceu um sorrisinho ao canto da boca quando li a declaração de renúncia de Fidel Castro, mas não sou otimista quanto ao futuro da ilha. Não acredito na inevitabilidade da história, nem na progressiva vitória da liberdade. Acredito sim é no pecado original, na dose de maldade que habita a natureza humana e na eterna ameaça de novos tiranos. É uma questão de tempo até que a liberdade chegue na ilha? Sim, mas de quanto tempo? Ontem, a situação era mais favorável, o governo cubano morria lentamente de inanição, órfão do dinheiro soviético, que remediava a ineficiência do sistema cubano para retirar o povo da miséria e cumprir as promessas revolucionárias. Hoje, o governo cubano tem novo padrinho e mantêm as rédeas graças aos petrodólares de Chávez, que, segundo Alejandro Peña Esclusa, um dos heróis da resistência venezuelana, tem o plano de, junto com Castro, fundir duas nações bajo un sólo gobierno.

Fidel saiu por livre e espontânea vontade, porque está velho, decrépito, doente. Não saiu porque a inevitabilidade do progresso na história colocará fim aos ditadores. Sua renúncia não é uma vitória da liberdade. Em Cuba, os cubanos não foram às ruas comemorar. E nem irão. O atendente do Pub em Irvington, vizinho dos defensores da liberdade, não poderá retornar a Cuba pois sabe que ainda é um desertor e traidor da revolução. O príncipe herdeiro, Raul Castro (já que a filha de Fidel fugiu e tornou-se sua inimiga em Miami), não dá nenhum sinal de que libertará o povo cubano. É uma pena.

E as conquistas da revolução? A educação? 100% de alfabetizados que só podem ler a cartilha editada pelo Estado? E a medicina cubana? Pelo que sei, 95% dos médicos formados em Cuba reprovam no exame do Conselho Federal de Medicina para validação dos diplomas no Brasil, tanto que o governo petista resolveu dar uma ajudinha e tentou criar a validação automática para os formados na ilha. As maiores contribuições da medicina cubana ainda são o nariz do José Dirceu e o vídeo abaixo.



Comentários

\"A maior contribuição da medicina cubana foi o nariz do Zé Dirceu.\" Boa, Grimaldo! José Latour - escritor cubano exilado - disse que o único setor que realmente funciona em Cuba é a propaganda. Ele tem razão, mas há outras coisas que também funcionam muito bem na ilha: a prostituição (num país onde um professor universitário ganha 12 dólares, é preciso se virar...); a repressão; e o auto-engano. Este último é o maior produto de exportação cubano. Milhões de esquerdistas no mundo (entre eles, gente que eu respeito e até amo) acreditam que Cuba é um paraíso de saúde e educação, com o pequeno inconveniente de ser também uma tirania. Um abraço. E boa sorte aos cubanos dentro e fora da ilha-presídio.

pbriguet - 23.02.08 05:38

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